25 de fevereiro de 2013





Volta de jipe pelas
7 colinas de Lisboa

no próximo domingo
dia 3 de março



O ezimut.com e a Lisbon Riders promovem, no próximo domingo, um passeio de jipe pelas sete colinas de Lisboa. Começa na Casa dos Bicos e passa pelos miradouros das Portas do Sol, da Graça, da Senhora do Monte, jardins do Torel, São Pedro de Alcântara, largo do Carmo, miradouro de Santa Catarina e inclui ainda uma visita ao Lisboa Story Centre. Um passeio de três horas, com um preço de 15 euros por pessoa. Saídas às 9h00, 11h30, 14h00 e 16h30. Pode inscrever-se enviando um email para info@lisbonriders.com
A volta das 7 colinas


em frente à Casa dos Bicos, Lisboa

22 de fevereiro de 2013

Turismo

“ Fábrica de Chocolate ” em Óbidos até Março


O Festival Internacional de Chocolate, que decorrerá este ano subordinado ao tema do filme “Charlie e a Fábrica de Chocolate” tem o seu início a 22 de Fevereiro e até 17 de Março.

O Festival, um motivo mais que suficiente para descobrir Óbidos, voltará, nesta edição de 2013, a estar aberto só nas sextas, sábados e domingos nos quatro fins-de semana.
“My Chocolate Box”, um concurso que vai premiar as caixas mais criativas para chocolates, é uma das novidades deste ano, bem como a “Fábrica de Chocolate”, um espaço a visitar para se observar a produção de bombons.

Ainda no campo das novidades, os mais curiosos, este ano, terão um espaço dedicado apenas a livros de cozinha e pastelaria com a temática do chocolate e ainda uma outra zona dedicada à experimentação de cocktails de chocolate, num ambiente de laboratório de investigação, informa a organização.
Tal como nas edições anteriores continuam o Concurso Internacional de Receitas de Chocolate, o Concurso Chocolatier Português do Ano, o Concurso de Montras em Chocolate e as tão apreciadas esculturas em chocolate.
Mantém-se também a famosa Passagem de Modelos com Chocolate, a realizar pelas 22:00, do dia 16 de Março, na Praça de Santa Maria.
No“Kids Cooking”, um espaço para os mais pequenos, e ainda os Cursos de Chocolateria, desde o nível I, para quem se está a iniciar na arte de preparar sobremesas de chocolate, ao nível III, para quem já domina a técnica, mas quer saber ainda mais.
Na Cerca do Castelo, onde decorre todo o evento, haverá a realização de esculturas de chocolate ao vivo, show cooking, onde se apresentam sobremesas tradicionais e pratos de carne ou peixe com chocolate, e ainda uma área de jogos para os mais pequenos, para além de demonstrações de body painting.

Os restaurantes do concelho de Óbidos associam-se ao evento, tendo nas suas ementas pratos especiais, todos com chocolate.

Os bilhetes, que podem ser adquiridos nas bilheteiras do evento ou na internet, serão colocados à venda muito brevemente.
Museus

“ Recriações ” no Museu do Artesanato e Design de Évora



Assinada por Gregório Figueiredo, é inaugurada pelas 16:30 de 13 de Fevereiro, no Museu de Artesanato e Design em Évora, “Recriações”, uma mostra composta por um conjunto de peças em madeira, elaboradas a partir de troncos e raízes de oliveira e azinho que, sem descaracterizar os sinais do tempo, o artista transforma em peças artísticas e utilitárias.

Recorde-se que o MADE alberga a colecção do antigo Museu do Artesanato/Centro de Artes Tradicionais, apostando na promoção da memória dos ofícios tradicionais do Alentejo, inserindo a produção artesanal no contexto do design e explorando, assim, novas conotações sociais e antropológicas.



“Recriações” vai estar patente ao público até ao dia 28 de Abril, de terça-feira a domingo, das 09:30 às 13:00 e das 14:30 às 18:00.
Cultura

Estoril Jazz considerado pela UNESCO evento comemorativo do Dia Internacional do Jazz



O festival Estoril Jazz, que decorrerá em Maio, foi considerado pela UNESCO Portugal um evento comemorativo do Dia Internacional do Jazz, anunciou hoje o promotor Duarte Mendonça à Agencia Lusa.

O festival não coincide com o Dia Internacional do Jazz, proclamado pela UNESCO pela primeira vez a 30 de Abril de 2012, mas a comissão nacional da organização, em Portugal, decidiu atribuir-lhe o selo de "evento comemorativo".

A 32.ª edição do Estoril Jazz, festival histórico criado pelo programador Duarte Mendonça, decorrerá de 10 a 12 e de 17 a 19 de Maio, no Casino Estoril, com um cartaz que inclui, por exemplo, o pianista Harold Mabern e a Orquestra do Hot Clube de Portugal.

O presidente da Câmara Municipal de Cascais. Carlos Carreiras, referiu na sua página do facebook "Nos nossos quase 650 anos fomos feitos de muitas histórias, construídas por muitas pessoas, ao longo de gerações. Pessoas com muito talentos e em varias artes. Somos feitos de varias cores e de varias rimas, mas também de vários sons. Somos um mosaico de vários lugares que se constituem como verdadeiras marcas que reforçam a nossa identidade. Estoril também rima com Jazz."

A Organização das Nações Unidas para a Educação Ciência Cultura (UNESCO) decretou 30 de Abril como o Dia Internacional do Jazz, por proposta do músico e compositor Herbie Hancock, por considerar que o jazz é uma expressão musical que pode "derrubar barreiras e simbolizar a paz e a unidade".

Este ano, a UNESCO quer aproveitar a efeméride para afirmar a importância deste estilo de música nos movimentos de luta pela liberdade e para ajudar novamente a um entendimento entre culturas.

"Onde há pessoas que lutam pela liberdade, o jazz está quase sempre", afirmou na terça-feira, em Istambul, Neil Ford, porta-voz da UNESCO, que insistiu na ligação entre este estilo de música e "os esforços para construir um mundo mais livre".

Ford anunciou que as celebrações do Dia Internacional terão este ano a cidade turca de Istambul como centro, o que permitirá ver o jazz sob outra perspetiva, conhecer os seus laços ao Médio Oriente e até considerar como esta música pode servir para reforçar o papel das mulheres na sociedade.
Concertos

Recreios da Amadora apresentam Paulo de Carvalho



O recital que terá lugar neste 22 de Fevereiro no espaço do Recreios da Amadora juntará duas culturas musicais que se encontram na experiência de músicos como Paulo de Carvalho e Victor Zamora.

Será um recital intimista que terá como base canções de Paulo de Carvalho, viajando por caminhos musicais novos através da colaboração de Victor Zamora.

Voz e Piano é o que podem ver e ouvir em canções que já conhecem na voz do Paulo.
"E Depois do Adeus", "Os Meninos de Huambo", "Prelúdio (Mãe Negra","O Cacilheiro", "Lisboa Menina e Moça" ou "O Fado", são alguns dos temas que se podem ouvir, em conjunto com histórias de vidas dos seus autores.
Concertos

" O Melhor dos Musicais " muita música no Coliseu



"O Melhor dos Musicais", o espectáculo que se exibe na noite de 22 de Fevereiro no Coliseu dos Recreios,
reúne os melhores artistas da actualidade e conta com uma orquestra que toca as mais belas canções de sempre.

Será um espectáculo que contará com John Owen-Jones, Robyn North, Madalena Alberto e Henrique Feist.

John Owen-Jones é considerado o melhor “Valjean” de sempre pelos fãs.
Ele foi o protagonista de “Les Miserables”, actuou na Broadway e no West End, também na “25th Anniversary Tour”, e de “Phantom of the Opera” em Londres que conta já com mais de 1600 representações.

Colaborou também na celebração dos 25 anos do “Les Miserables” no quarteto final, também como nos 25 anos do “Phantom of the Opera”, também no momento final dos 4 Phantoms com Sarah Brightman

Robyn foi nomeada pela Whatsonstage.com pela personagem Christine Daaé no "Phantom of the Opera" em Londres, papel que desempenhou mais de 1000 vezes.
Recentemente, tambem colaborou na Comemoração dos 25 anos deste musical, No Royal Albert Hall.
Presentemente, podemos ver a Robyn no filme "Les Misérables".

Madalena Alberto, mais uma portuguesa a brilhar nos palcos dos melhores musicais, foi protagonista de “Fame”, “Chicago” e “Zorro” em Londres e esteve presente no 25º aniversário de “Les Miserables” onde foi também protagonista.
Henrique Feist, que está presente nos melhores musicais já feitos em Portugal, foi protagonista de “Sweeney Todd”, “Cabaret” e “Máquina de Somar” em Lisboa.

Teve duas nomeações para os Globos de Ouro na categoria de “Melhor Actor” tendo sido galardoado com o prémio da SPA para melhor Actor pela sua participação no musical "Máquina de Somar" e representa a Disney em Portugal sendo a sua voz masculina, conhecida por todos nós.

Nuno Feist assume a direcção musical e também a orquestra deste espectáculo e tem no seu currículo a direcção musical dos Globos de Ouro desde 2006 até hoje, foi ainda o compositor do musical “Maldita Cocaína”.
Participou como director musical de “Os Produtores”, “Fame” e “High School Musical 2”, em inúmeros programas de TV.

Os irmãos Nuno Feist e Henrique Feist estão a comemorar 30 anos de carreira e mais uma vez estão juntos na produção e realização de um espectáculo musical.
Concertos

Joel Xavier com “ Alegria ” no Gil Vicente em Coimbra



Joel Xavier regressa em 2013 com ”Alegria “, uma trabalho que encerra uma explosão de ritmos desde o samba do Brasil à coladeira de Cabo Verde até ao semba de Angola, numa linguagem única em que a guitarra é a principal protagonista.
“Alegria”, incluiu composições de vários cd’s editados internacionalmente durante os mais de 20 anos de carreira de Joel Xavier, assim como a apresentação de novos originais de sua autoria.
Ao vivo, Joel Xavier irá apresentar-se com o seu “ Power Trio “ composto por Milton Batera, do Brasil na bateria & percussão e Markus Britto, também do Brasil no baixo.

20 de fevereiro de 2013

História do Fado

Nascido nos contextos populares da Lisboa oitocentista, o Fado encontrava-se presente nos momentos de convívio e lazer. Manifestando-se de forma espontânea, a sua execução decorria dentro ou fora de portas, nas hortas, nas esperas de touros, nos retiros, nas ruas e vielas, nas tabernas, cafés de camareiras e casas de meia-porta. Evocando temas de emergência urbana, cantando a narrativa do quotidiano, o fado encontra-se, numa primeira fase, vincadamente associado a contextos sociais pautados pela marginalidade e transgressão, em ambientes frequentados por prostitutas, faias, marujos, boleeiros e marialvas. Muitas vezes surpreendidos na prisão, os seus actores, os cantadores, são descritos na figura do faia, tipo fadista, rufião de voz áspera e roufenha, ostentando tatuagens, hábil no manejo da navalha de ponta e mola, recorrendo à gíria e ao calão. Esta associação do fado às esferas mais marginais da sociedade ditar-lhe-ia uma vincada rejeição pela parte da intelectualidade portuguesa.

Atestando a comunhão de espaços lúdicos entre a aristocracia boémia e as franjas mais desfavorecidas da população lisboeta, a história do fado cristalizou em mito o episódio do envolvimento amoroso do Conde de Vimioso com Maria Severa Onofriana (1820-1846), meretriz consagrada pelos seus dotes de cantadeira e que se transformará num dos grandes mitos da História do Fado, referencial agregador da comunidade fadista. Em sucessivas retomas imagéticas e sonoras, a evocação do envolvimento de um aristocrata boémio com a meretriz, cantadeira de fados, perpassará em muitos poemas cantados, e mesmo no cinema, no teatro, ou nas artes visuais, desde logo a partir do romance A Severa, de Júlio Dantas, publicado em 1901 e transportado para a grande tela em 1931, naquele que seria o primeiro filme sonoro português, dirigido por Leitão de Barros.

Também em eventos festivos ligados ao calendário popular da cidade, em festas de beneficência ou nas cegadas - representações teatrais de carácter amador e popular, na generalidade representadas por homens, nas ruas, verbenas, associações de recreio e colectividades - o fado ganharia terreno. Apesar deste tipo de representação constituir um divertimentos célebres do Carnaval lisboeta, de franca adesão popular e muitas vezes com um vincado carácter de intervenção, a regulamentação da censura em 1927 iria contribuir, de forma lenta mas irreversível, para a extinção deste tipo de espectáculo.

O Teatro de Revista, género de teatro ligeiro tipicamente lisboeta nascido em 1851, cedo descobrirá as potencialidades do fado que, a partir de 1870 integra os seus quadros musicais, para ali se projectar junto de um público mais alargado. O contexto social e cultural de Lisboa com seus bairros típicos, sua boémia, assume protagonismo absoluto no teatro de revista. Ascendendo aos palcos do teatro o fado animará a revista, estruturando-se novas temáticas e melodias. No teatro de revista, com refrão e orquestrado, o fado será cantado quer por famosas actrizes, quer por fadistas de renome, cantando o seu repertório. Ficariam na história duas formas diferentes de abordar o fado: o fado dançado e estilizado por Francis e o fado falado de João Villaret. Figura central da história do Fado, Hermínia Silva consagrou-se nos palcos do teatro nas décadas de 30 e 40 do Século XX, somando os seus inconfundíveis dotes de cantadeira com os de actriz cómica e revisteira.

Alargando-se o campo de apropriação do fado a partir do último quartel do séc. XIX, corresponde a esta época a estabilização formal da forma poética da “décima”, quadra glosada em quatro estrofes de dez versos cada, aquela em torno da qual se estruturaria o Fado para mais tarde se desenvolver em torno de outras variantes. Será também neste período que a guitarra, ao longo do século XIX, progressivamente difundida dos centros urbanos para as zonas rurais do país, se definirá na sua componente específica de acompanhamento do fado.

A partir das primeiras décadas do século XX o fado conhece uma gradual divulgação e consagração popular, através da publicação de periódicos que se consagram ao tema, e da consolidação de novos espaços performativos numa vasta rede de recintos que, numa perspectiva comercial, passava agora a incorporar o Fado na sua programação, fixando elencos privativos que muitas vezes se constituíam em embaixadas ou grupos artísticos para efeitos de digressão. Paralelamente, sedimentava-se a relação do Fado com os palcos teatrais, multiplicando-se as actuações de intérpretes de fado nos quadros musicais da Revista ou das operetas.

Com efeito, o aparecimento das companhias de fadistas profissionais a partir da década de 30, veio permitir a promoção de espectáculos, com elencos de grande nomeada e a sua circulação pelos teatros de norte a sul do País, ou mesmo em digressões internacionais. Tal foi o caso do “Grupo Artístico de Fados” com Berta Cardoso (1911-1997), Madalena de Melo (1903-1970), Armando Augusto Freire, (1891-1946) Martinho d’Assunção (1914-1992) e João da Mata e do “Grupo Artístico Propaganda do Fado” com Deonilde Gouveia (1900-1946), Júlio Proença (1901-1970) e Joaquim Campos (1899-1978) ou da “Troupe Guitarra de Portugal”, integrada, entre outros, por Ercília Costa (1902-1985) e Alfredo Marceneiro (1891-1982).

Embora os primeiros registos discográficos produzidos em Portugal datem dos alvores do século XX, o mercado nacional era ainda, nesta fase, bastante incipiente, uma vez que a aquisição quer de gramofones, quer de discos, acarretava custos bastante elevados. Efectivamente, depois da invenção do microfone eléctrico, em 1925, reunir-se-iam as condições fundamentais às exigências de captação do registo sonoro. Decorrendo, no mesmo período, o fabrico de gramofones a preços cada vez mais competitivos, estavam criadas, junto de uma classe média, as condições mais favoráveis de acesso a este mercado.

No contexto dos instrumentos de mediatização do fado a TSF – telegrafia sem fios - assumiu uma importância central nas primeiras décadas do século XX. Da intensa actividade de postos de radiodifusão verificada entre 1925 e 1935, destacam-se o CT1AA, o Rádio Clube Português, a Rádio Graça e a Rádio Luso rapidamente popularizada pelo destaque que deu ao fado. Em 1925 tinham início as emissões da primeira estação de rádio portuguesa, o CT1AA. Investindo nas infra-estruturas técnicas e logísticas que lhe garantiam a expansão do seu âmbito de radiodifusão e a regularidade das emissões, o CT1AA de Abílio Nunes passou a integrar o fado nas suas emissões, angariando um vasto círculo de ouvintes, que se estendia à diáspora da emigração portuguesa. Incluindo emissões em directo dos Teatros, bem como apresentações musicais ao vivo nos estúdios, o CT1AA promovendo ainda, a título experimental, a transmissão de um programa de fados da responsabilidade do violista Amadeu Ramin.

Com o golpe militar de 28 de Maio de 1926 e a implementação da censura prévia sobre espectáculos públicos, imprensa e demais publicações, a canção urbana sofreria profundas mutações. De facto, logo no ano seguinte, regulamentando globalmente as actividades de espectáculo através de um extenso clausulado, o Decreto-Lei nº 13 564 de 6 de Maio de 1927, vinha consagrar, ao longo do disposto em 200 artigos, uma “Fiscalização superior de todas as casas e recintos de espectáculos ou divertimentos públicos (…) exercida pelo Ministério da Instrução Pública, por intermédio da Inspecção Geral dos Teatros e seus delegados”. Neste contexto, o fado sofreria inevitavelmente profundas mutações regulado agora, nos termos do disposto naquele instrumento legal, ao nível da concessão de licenças a empresas promotoras de espectáculos, nos mais diversificados recintos, dos direitos de autor, da obrigatoriedade de visionamento prévio de programas e repertórios cantados, da regulamentação específica para a atribuição da carteira profissional, da realização de contratos, deslocações em tournées, entre inúmeros outros aspectos. Impunham-se, assim, significativas mutações no âmbito dos espaços performativos, no modo de apresentação dos intérpretes, nos repertórios cantados – despidos de qualquer carácter de improviso – consolidando-se um processo de profissionalização de uma plêiade de intérpretes, instrumentistas, letristas e compositores, que passava a actuar em recintos diversificados para um público cada vez mais alargado.

Gradualmente, tenderia a ritualizar -se a audição de fados numa casa de fados, locais que iriam sobretudo concentrar-se nos bairros históricos da cidade, com maior incidência no Bairro Alto, sobretudo a partir dos anos 30. Estas transformações na produção do fado irão necessariamente afastá-lo do campo do improviso, perdendo-se alguma da diversidade dos seus contextos performativos de origem e, por outro lado, obrigar à especialização de intérpretes, autores e músicos. Paralelamente, as gravações discográficas e radiofónicas propunham uma triagem de vozes e práticas interpretativas que se impunham como modelos a seguir, limitando o domínio do improviso.

Na década seguinte, vingariam definitivamente as tendências de um revivalismo dos aspectos ditos típicos, que apontavam para a recriação dos aspectos mais genuínos e pitorescos nos ambientes performativos do fado.

E se desde o primeiro momento o fado marcou presença no teatro e na rádio o mesmo irá acontecer na sétima arte. De facto, se o advento do cinema sonoro foi marcado pelo musical, o cinema português consagrou ao fado particular atenção. Ilustra-o bem o facto do primeiro filme sonoro português, realizado em 1931, por Leitão de Barros, ter por temática as desventuras da mítica figura da Severa. Como tema central ou simples apontamento, o fado foi acompanhando a produção cinematográfica portuguesa até à década de 70. Neste sentido, também em 1947 com O Fado, História de uma Cantadeira protagonizado por Amália Rodrigues ou, em 1963, com O Miúdo da Bica, protagonizado por Fernando Farinha, o cinema português consagra particular atenção ao universo fadista. Não obstante o protagonismo de Amália Rodrigues, também neste contexto, são ainda de sublinhar as incursões na Sétima Arte, de artistas como Fernando Farinha, Hermínia Silva, Berta Cardoso, Deolinda Rodrigues, Raul Nery e Jaime Santos.

E se a difusão radiofónica permitira ultrapassar barreiras geográficas, levando a milhares de pessoas as vozes do fado, depois da inauguração da Rádio Televisão Portuguesa - em 1957 – e, sobretudo, com a sua difusão, à escala nacional, em meados da década seguinte, os rostos dos artistas passariam a ser divulgados junto do grande público. Recriando em estúdio ambientes ligados às temáticas fadistas, a televisão transmitiria regularmente, em directo, de 1959 a 1974, programas de fado que contribuiriam de um modo inequívoco para a sua mediatização.

Usufruindo desde o último quartel do século XIX da divulgação nos palcos do Teatro de Revista e, a partir das primeiras décadas do século XX, da promoção de uma imprensa especializada, mediatizando-se progressivamente na Radio, no Cinema e na Televisão, o fado conhece uma franca vitalidade no período compreendido entre as décadas de 1940 e 1960, muitas vezes designado de “anos de ouro”, surgindo em 1953 o concurso da Grande Noite do Fado que se realizará anualmente, até aos nossos dias. Reunindo centenas de candidatos das várias colectividades e agremiações da cidade, este concurso, tradicionalmente realizado no Coliseu dos Recreios mantém-se, ainda hoje, como um evento de grande importância na tradição fadista da cidade e na promoção de jovens amadores que ali tentam ascender ao estatuto profissional.

Os expoentes da canção nacional encontravam-se, nesta época, vinculados a uma rede de casas típicas com elenco residente, usufruindo agora de um mercado de trabalho mais vasto, onde avultam as possibilidades de gravação discográfica, de realização de digressões e tournées, de actuações na rádio e na televisão. Paralelamente, sucediam-se as apresentações de fadistas nos “Serões para Trabalhadores” eventos culturais de cobertura radiofónica promovidos pela FNAT, a partir de 1942, promovendo-se os programas de fado também a partir do Secretariado Nacional de Informação, Cultura e Turismo que, a partir de 1944 passava a tutelar a Censura, a Emissora Nacional e a Inspecção Geral dos Espectáculos. A partir da década de 1950, a aproximação do regime ao prestígio internacional de Amália Rodrigues vinha reforçar esta colagem do regime ao fado, depois de nele operar profundas alterações.

Se a simplicidade da estrutura melódica do Fado valoriza a interpretação da voz, ela sublima também os repertórios cantados. Com forte pendor evocativo, a poesia do fado apela à comunhão entre intérprete, músicos e ouvinte. Em quadras ou quadras glosadas, quintilhas, sextilhas, decassílabos e alexandrinos, esta poesia popular evoca os temas ligados ao amor, à sorte e ao destino individual, à narrativa do quotidiano da cidade. Sensível às injustiças sociais, revestiu-se inúmeras vezes, de um vincado carácter de intervenção.

E se as primeiras letras de Fado eram, na sua maioria, anónimas, sucessivamente transmitidas pela tradição oral, esta situação inverter-se-ia definitivamente a partir de meados da década de 20, época em que surge uma plêiade de poetas populares como Henrique Rego, João da Mata, Gabriel de Oliveira, Frederico de Brito, Carlos Conde e João Linhares Barbosa, que consagrará ao fado particular atenção. A partir dos anos 50 do século XX o fado cruzar-se-á definitivamente com a poesia erudita na voz de Amália Rodrigues. A partir do contributo decisivo do compositor Alain Oulman, o fado passará a cantar os textos de poetas com formação académica e obra literária publicada como David Mourão-Ferreira, Pedro Homem de Mello, José Régio, Luiz de Macedo e, mais tarde, Alexandre O’Neill, Sidónio Muralha, Leonel Neves ou Vasco de Lima Couto, entre muitos outros.

A divulgação internacional do Fado começara já a esboçar-se a partir de meados da década de 30, em direcção ao continente africano e ao Brasil, destinos preferenciais para actuação de artistas como Ercília Costa, Berta Cardoso, Madalena de Melo, Armando Augusto Freire, Martinho d’Assunção ou João da Mata, entre outros artistas. Seria, porém, a partir da década de 1950 que a internacionalização do Fado se consolidaria definitivamente sobretudo através da figura de Amália Rodrigues.

Ultrapassando as barreiras da cultura e da língua, com Amália o Fado consagrar-se-ia definitivamente como um ícone da cultura nacional. Durante décadas e até à data da sua morte, em 1999, caberia a Amália Rodrigues, o protagonismo a nível nacional e internacional.

Introduzida em Portugal a partir das colónias inglesas de Lisboa e do Porto, referências de gosto e mentalidade cultural da época, a guitarra inglesa conheceu uma grande divulgação nos salões europeus de meados do século XVIII. De utilização exclusiva nos círculos da burguesia e da nobreza dos salões urbanos, entre meados do século XVIII e 1820, “é nessa qualidade que a vemos associada ao acompanhamento de algumas modinhas e cançonetas italianas de carácter mais erudito (…) no que se refere aos primeiros testemunhos do Fado dançado no Brasil (…) as fontes da época mencionam sempre a viola. O mesmo sucede nas descrições mais antigas do fado de Lisboa (…)” (Cfr. NERY, Rui Vieira, Para uma História do Fado, Lisboa, Publico/Corda Seca, 2004, p. 98).

A partir do início do novo século vai surgindo nas fontes históricas a designação “guitarra portuguesa” atestando possivelmente o modelo de seis pares de cordas, uma alteração provavelmente introduzida em Portugal e, será sobretudo a partir de 1840, que surgem notícias da sua associação ao contexto performativo fadista onde assumirá um plano de absoluta centralidade.

Na história da construção da guitarra portuguesa, inteiramente artesanal, distinguem-se duas famílias de guitarreiros que aperfeiçoaram e transmitiram o seu segredo ao longo de sucessivas gerações. A primeira inicia-se com Álvaro da Silveira e é continuada por Manuel Cardoso e seu filho Óscar Cardoso. A segunda nasce com João Pedro Grácio e mantém-se com João Pedro Grácio Júnior, que se destaca de seis irmãos, e seu filho Gilberto Grácio. O diálogo permanente entre esta oficina e os executantes que a preferiram, como Luís Carlos da Silva, Petrolino, Armando Freire, Artur Paredes, Carlos Paredes, José Nunes, foi fundamental á evolução técnica e acústica do instrumento.

De entre os guitarristas, Armando Augusto Freire, também conhecido por Armandinho (1891-1946) foi autor de inúmeros fados e variações, deixando uma escola da qual saíram, entre outros, Jaime Santos, Carvalhinho, Raúl Nery e José Fontes Rocha.

No que se refere aos conjuntos de guitarras, ficaram como referência os conjuntos do Professor Martinho d’Assunção, proeminente violista e compositor e o conjunto de guitarras de Raúl Nery criado a convite da Emissora Nacional e formado pelo próprio Raúl Nery como primeiro guitarra, José Fontes Rocha – segundo guitarra - Júlio Gomes –viola - e Joel Pina –viola baixo.

A revolução de Abril de 1974 veio instaurar um Estado democrático em Portugal, fundado no pressuposto da integração das liberdades públicas, no respeito e garantia dos direitos individuais, com a inerente abertura, aos cidadãos, de uma mais activa participação cívica, política e social. Progressivamente, ao longo das décadas seguintes, far-se-ão sentir as influências da cultura de massas, próprias de uma sociedade da era da globalização, contexto que modificará a relação do fado com o mercado português, que se concentra agora na música popular de carácter interventivo absorvendo, simultaneamente, muitas das formas musicais criadas no estrangeiro.

Nos anos imediatamente seguintes à revolução a interrupção, por dois anos, do concurso da Grande Noite do Fado, ou a diminuição radical da presença do fado em emissões radiofónicas ou televisivas, atestam bem a hostilidade ao fado.

De facto, só a estabilização do regime democrático devolveria ao fado o seu espaço próprio a partir de 1976 e, logo no ano seguinte, vinha a lume o álbum Um Homem na Cidade por um dos maiores expoentes da canção urbana de Lisboa, figura central da internacionalização do fado, autor de uma sólida carreira de 45 anos, ao longo da qual tem articulado, como ninguém, a tradição fadista mais legítima, a uma inesgotável capacidade de a recriar.

Encerrando-se gradualmente o debate ideológico em torno do fado, será sobretudo a partir da década de 1980 que terá lugar o reconhecimento do lugar central do fado consenso, no quadro do património musical português, assistindo-se a um renovado interesse do mercado pela canção urbana de Lisboa, como o atestam a atenção crescente da indústria discográfica, através, nomeadamente de reedições de registos gravados, a gradual integração do fado nos circuitos dos festejos populares, à escala regional, o aparecimento progressivo de uma nova geração de intérpretes, ou ainda a aproximação ao fado de cantores de outras áreas como José Mário Branco, Sérgio Godinho, António Variações ou Paulo de Carvalho.

Emergindo, no plano internacional um renovado interesse pelas culturas locais musicais, através dos seus expoentes mais reconhecidos, nos circuitos do disco, dos media e dos espectáculos ao vivo, Amália Rodrigues e Carlos do Carmo assumem destaque absoluto.

Já nos anos 90 o fado consagrar-se-ia, definitivamente nos circuitos da World Music internacional com Mísia e Cristina Branco, respectivamente no circuito francês e na Holanda. Também nos anos 90, um outro nome que se destaca no panorama do Fado é Camané, com grande consagração. Desde a década de 90 e já no dealbar do século surge uma nova geração de talentosos intérpretes como Mafalda Arnauth, Katia Guerreiro, Maria Ana Bobone, Joana Amendoeira, Ana Moura, Ana Sofia Varela, Pedro Moutinho, Helder Moutinho, Gonçalo Salgueiro, António Zambujo, Miguel Capucho, Rodrigo Costa Félix, Patrícia Rodrigues, ou Raquel Tavares. No circuito internacional porém, Mariza assume protagonismo absoluto, desenhando um percurso fulgurante, ao longo do qual tem legitimamente colhido sucessivos prémios na categoria de World Music.

Excertos do texto:
Pereira, Sara (2008), “Circuito Museológico”, in Museu do Fado 1998-2008, Lisboa: EGEAC/Museu do Fado.

A capela e a fonte da senhora da saúde


Havia, outrora, na pequena povoação de Saudel, da freguesia de S. Lourenço e do Concelho de Sabrosa, um pobre lavrador, muito religioso e temente a Deus, que tinha uma filha bastante doente.
Apesar disso, mandava-a todos os dias apascentar as poucas ovelhas que tinha, num monte que ficava perto da povoação, onde havia uma fonte, erva abundante e muitos castanheiros.
A menina, habituada com os pais, rezava diariamente o terço, contando as ave-marias pelos dedos. E, no tempo das castanhas, varejava os ouriços com a vara de pastora e abria-os com uma pedra, para lhes comer os frutos. No resto do ano, comia alguma côdea de pão, quando calhava, porque em sua casa nem sempre havia esse manjar.
Um dia, depois da sua oração habitual, apareceu-lhe Nossa Senhora que lhe disse:
- Eu sou a Senhora da Saúde e venho fazer-te um pedido: diz ao teu pai que Me construa uma capela grande, neste lugar, e ponha nela a minha imagem.
A menina respondeu:
- Mas o meu pai não tem dinheiro para a fazer. Às vezes, até o pão falta em nossa casa.
A Senhora respondeu:
- Diz-lhe também que, se ele aceitar o meu pedido, não faltará dinheiro para as obras nem pão para vós.
A pequena foi para casa e contou ao pai tudo o que a Senhora lhe tinha dito.
O pai acreditou nas palavras da filha e, confiante nas promessas de Nossa Senhora de quem era muito devoto, deitou imediatamente mãos à obra.
Contratou pedreiros para cortar a pedra, carreiros para a transportar e canteiros para a trabalhar e assentar.
As obras cresciam a olhos vistos e em pouco tempo a capela ficou concluída, com grande admiração de toda a gente. Ninguém sabia donde vinha o dinheiro, mas a verdade é que nunca ele faltou, como também nunca mais faltou pão com abundância em casa do lavrador.
Todos reconheceram, por isso, que ali andava o dedo de Nossa Senhora, pois, sem Ela, as coisas não poderiam ter corrido tão bem e tão depressa.
Concluída a capela, encomendaram uma imagem, colocaram-na no altar e deram-lhe o nome de Senhora da Saúde, como Ela Se tinha apresentado.
Algum tempo depois, Nossa Senhora voltou a aparecer à menina doente e disse-lhe:
- Estou muito contente por teres feito o que te pedi. Agora, vou fazer-te mais um pedido: vai lavar-te à fonte que está ao pé da capela.
A menina obedeceu e ficou curada.
Quando regressou à povoação e contou o que lhe tinha sucedido, houve uma explosão de alegria. Todos deram graças à Senhora da Saúde que tão generosamente pagou à menina doente o favor que esta Lhe fizera.
E, daí em diante, os pais começaram a correr para a fonte e a mergulhar nela os filhos doentes, para obterem a cura dos seus males.
A fama destas curas espalhou-se por muito longe, e de toda a parte ali acorriam também os adultos, para beber a água e lavar-se com ela.
O povo de Saudel diz que Nossa Senhora desce do altar todas as sextas-feiras, à meia-noite, em forma de pomba, para benzer a água e manter-lhe o poder de curar.
Essa crença nasceu dum acontecimento miraculoso ocorrido a um casal de peregrinos que, há muito tempo, aí se deslocou, para cumprir uma promessa, no dia de sexta-feira.
Como eram de muito longe, foram autorizados pelo ermitão a pernoitar na casa ao lado da capela, nessa altura cheia de palha seca.
Para se acomodarem, levaram com eles uma vela e colocaram-na no parapeito da janela. Depois, deitaram-se e adormeceram, esquecendo-se de a apagar.
Pela meia-noite, quando já estavam mergulhados num sono profundo, a vela caiu e a palha começou a arder, à sua volta. Já prestes a ser devorados pelas chamas, sentiram um bico de ave a picá-los nas faces e acordaram sobressaltados.
Abriram os olhos e ainda puderam ver, à luz das labaredas, uma pomba branca a sair pela janela que dava para a fonte.
Só então deram pelo pavoroso incêndio que lavrava à sua volta. Levantaram-se, muito aflitos, julgando estar no fim dos seus dias, mas sentiram uma força interior que os impelia para a porta e conseguiram atravessar as chamas sem a mais leve queimadura.
Quando o milagre se tornou conhecido, o povo de Saudel concluiu que foi a Senhora da Saúde, em forma de pomba, que os salvou da morte, quando ia benzer a fonte dos milagres.
Por isso, no dia nove de Agosto, dia da festa da Senhora da Saúde, acorria ao recinto da capela, cantando jubilosamente:

Ó Senhora da Saúde,
Senhora tão pequenina,
Quando vais benzer a fonte,
Vais feita numa pombinha.
Fonte: FERREIRA, Joaquim Alves Lendas e Contos Infantis Vila Real, Edição do Autor, 1999 , p.89-91

Aboim da Nobrega

O orago da freguezia é Nossa Senhora da Assumpção, cuja egreja foi em tempos remotos mosteiro de freiras bentas, Ha aqui um dente santo que dizem ser de S. Fructuoso, abbade de Constantim (junto a Villa Real) onde está a cabeça d’elle sem um dente, outros querem que seja de Santo Eleuterio, papa, martyrisado em 196, e outros finalmente sustentam que é de Santo Eleuterio, arcebispo de Braga, fallecido em 550. O que é certo é ser o povo d’estes sítios muito devoto d’este dente, que, segundo elle, livra de mordeduras de cães damnados.
 
Fonte: PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.Tomo I, p. 15
[ A Ermida da Senhora do Pilar ]

Em relação á ermida da Senhora do Pilar ha uma lenda, que é commum a todas as ermidas, pelo menos d’esta provincia. Diz a tradição que a Senhora appareceu no cimo do outeiro, onde hoje está edificada a sua Ermida, e que os povos d’aquelle tempo conduziram para o templo da Matriz a Imagem além encontrada, mas que a Senhora continuára a apparecer no cimo do outeiro, mostrando assim que ali queria ser venerada. Teimando o povo, e teimando a Senhora, teve o povo de ceder, mandando ali construir aquella Ermida.

Fonte: OLIVEIRA, Francisco Xavier d'Ataíde Monografia do Algoz Faro, Algarve em Foco, s/d [1905] , p.208

Local Algoz, SILVES, FARO

A Água de São Gens


Junto da povoação de Santos, freguesia de Mação, eleva-se monte bastante alto, de forma conica, cujo vertice é coroado pela branca capelinha de São Gens.
Este monte, terminado em pico, tem todas as caracteristicas dos de origem vulcanica, não lhe faltando a existencia de peixes, plantas e moluscos fossilisados, que ali se teem encontrado em abundancia.
Proximo da capelinha, para o lado sul, existe o resto de uma fonte arcada que se acha obstruida com pedras e lôdo, cuja agua foi sempre e ainda presentemente é, considerada milagrosa, muito procurada pelo povo desta região para a cura do fastio.
Esta agua, quer de inverno, quer de verão, sobe sómente até á altura das paredes da fonte; e se alguma extravasa sóme-se logo ali para não mais ser vista, atribuindo-se isso a um milagre de São Gens, como consta da seguinte lenda, que os povos destes sitios teem conservado e transmitido de geração em geração.
O monte, cheio de pinheiros e de expessos matagaes foi, em tempos remotos atacado por um violento incendio que consumiu toda a sua vegetação, á excepção, porem, da do vertice, que o incendio respeitou, ficando incolumes touças de torga, maninhos e pinheiros, que continuaram a verdejar no meio daquele quadro desolador de carvão e cinza.
Movidas de curiosidade foram ali algumas pessoas no intuito de descobrirem a causa d’aquele facto; e, percorrendo o local, foram encontrar em uma lapinha dos penhascos ao cimo do monte, a imagem de S. Gens, crendo então que por milagre dele o incendio não consumiu aquela parte do monte!
Dada a noticia do aparecimento do Santo aos povos circunvisinhos de Santos, Caratão e Castelo, resolveram eles trazer o Santo em procissão desde o alto do monte até ás abas do mesmo, onde se achava a Capela de S. Mateus e ali o colocaram.
No dia seguinte, porem, deram pela sua falta, tendo desaparecido misteriosamente. Procurando-o por toda a parte foram encontrai-o na mesma lapinha onde fora achado na vespera.
Trazido novamente para a Capela de S. Mateus mais uma vez desapareceu d’ali, sendo depois encontrado no mesmo sitio no alto do monte; pelo que o povo compreendeu que S. Gens com a sua fuga queria indicar-lhes que lhe fizessem ali uma capela; por isso trataram os habitantes circunvisinhos de a construirem começando desde logo a preparar os materiaes necessarios. Ao começar a obra lamentaram que seria muito penosa a condução da agua necessaria, pois que teriam de ir por ela a consideravel distancia e leva-la para o alto de tão ingreme outeiro; porisso toda aquela gente pediu ao Santo o seu patrocinio para que os livrasse desta dificuldade.
As suas préces foram ouvidas porque logo ali apareceu uma nascente de agua, que brotando impetuosa de uns penhascos, corria pelo monte abaixo até ao vale.
Cantando louvores ao Santo por aquele milagre edificaram em seguida a capela onde S. Gens ficou até hoje, e construiram no sitio onde a agua brotou a fonte de agua milagrosa que todas as gerações até ao presente têm usado com exito para a cura do fastio.
Não acaba ainda aqui a série de milagres de S. Gens:
Como a nascente era muito abundante os povos circunvisinhos lançaram mão daquelas aguas para a rega das suas propriedades; mas não se entendendo uns com os outros ácerca da partilha delas, querendo todos regar ao mesmo tempo, resultou dahi uma série de conflictos entre os interessados, que em continuas contendas e brigas disputavam a prioridade do uso das aguas para regas.
Em um ano, tão graves foram essas brigas que chegou a haver mortes de alguns individuos, facto que motivou grandes odios e malquerenças entre aquela gente outrora tão amiga.
São Gens, não querendo, certamente, que as suas aguas originassem tantos pecados nos homens, fez novo milagre: dali em deante as aguas que ali nasciam chegavam sómente até á altura das paredes do tanque da fonte, deixando de correr pelo monte abaixo, e se alguma trasbordava sumia-se logo ali, desaparecendo sem ninguem mais a ver; o que ainda hoje sucede.
Vendo neste acontecimento a intervenção de S. Gens, os povos contendores congrassaram-se e resignaram-se a ficarem sem agua para as regas dos seus predios como castigo ao seu egoismo e ás suas maldades.
A agua ainda hoje continua a nascer e a desaparecer junto á fonte, ainda mesmo no tempo das grandes chuvas de inverno, e continua a ser procurada e usada pelos doentes que sofrem de fastio, não sendo raro ouvir dizer para os indivíduos que comem com muito apetite: «Tu não necessitas beber agua de São Gens !»

Fonte: SERRANO, Francisco
Elementos Históricos e Etnográficos de Mação Mação, Câmara Municipal de Mação, 1998 [s/d] , p.151-153

Local-, MAÇÃO, SANTARÉM
A alma penada de odelouca

Havia uma senhora em Odelouca que tinha nove irmãos. Quando os pais morreram todos foram herdeiros. Ela herdou como um qualquer dos irmãos e dividiram as terras. Mas à noite ela ia, tirava o marco dela e punha mais desviado. No outro dia punha mais desviado.
Havia lá uma senhora que se chamava Palmira e disse-lhe assim, comadre não faça isso, que isso não se pode fazer, roubar terra.
A outra respondia comadre nesta vida bem passar que na outra ninguém nos vê penar.
Acontece que ela morreu e então à noite, pelas partilhas (eu era miúda pequena) e a gente só ouvia era ais. Eu dizia assim, coitadinha, quem é, avó? Ó filha, cala-te. Ó avó, mas quem é que está chorando?
Cala-te, filha, não digas nada.
Uma bela noite estávamos jantando favas (era a primeira vez que se comia favas naquele ano) e então ouvimos um choro para o lado dum lameiro. Era um lameiro muito grande, muito grande, e quem vinha de noite de Portimão, carvoeiros e outras pessoas, quando passavam por ali às vezes as bestas atolavam-se e só puxadas é que conseguiam safar-se. Parecia que vinha daquele lado o choro, uma agonia tão grande que se comovia o coração.
Diz a minha avó assim para um filho solteiro que tinha: filho vamos lá ver que foi alguém que veio de Portimão, eu ouço também unia criança chorar, é alguem que caiu além na lama e não se dá tirado.
Abalámos e fomos lá ver. Quando chegámos ao pé, uma lua como um sol, não estava besta, não estava vulto nenhum, não estava nada.
Voltámos para casa. E aqueles ais atrás da gente, aqueles ais sempre atrás da gente, que quando fomos para a mesa ninguém falava naquela casa e aquilo já soava debaixo da mesa onde a gente estava.
Estivemos ali naquilo até ao galo cantar e o meu avô disse assina “Bendito, louvado e adorado seja o Santíssimo Sacramento do Altar”. A partir daí não ouvimos mais nada. Isto ouvi eu várias vezes em miúda nova.
E depois as pessoas dali foram ter com o padre de Portimão, que era o padre Evaristo. Diziam que esse padre nunca tinha tido nada com mulheres e então que tinha virtude. Vieram pedir para ele esconjurá-la. Esconjurou pelo rio das pedras negras para ela medir um moio de areia com um meio alqueire sem fundo. Era a penitência. Coitada, nunca mais cá volta.
Então o padre disse que só no dia do Juízo, se ela já tiver a penitência paga, é que fica salva.
NUNCA HÁ BEM PASSAR QUE NA OUTRA VIDA NÃO DÊ EM PENAR.


Fonte: TENGARRINHA, Margarida Da Memória do Povo Lisboa, Colibri, 1999 , p.67-68

Local Mexilhoeira Grande, PORTIMÃO, FARO
Cultura

“ A ordem alfabética é uma pura convenção ”



O casal de artistas, ele tipógrafo, ela linguista, criaram uma nova linguagem, um novo entendimento do mundo.
Angela Detanico e Rafael Lain são uma dupla muito viajada, de origem brasileira, que vive e trabalha em Paris.
Começaram a mostrar os seus trabalhos em 2001 e, em 2007, representaram o Brasil na 52ª Bienal de Veneza.
“Amplitude” é fruto de um trabalho de experimentações, cálculos, observando aquilo que nos rodeia.
Agora em Lisboa, os artistas tiveram de adaptar as suas obras à capital portuguesa.
Assim como fazem sempre que expõem noutros países, é um exercício que mostra o carácter inovador das instalações que criam e que nunca são vistas da mesma forma.
São mutáveis de acordo com a posição geográfica dos seus visitantes.
Se à primeira vista pensar que as obras são aleatórias e que não fazem sentido, desengane-se.
Angela e Rafael escrevem o seu próprio código-morse e brincam com o alfabeto, com a arquitectura criada pelas linhas. “Uma composição visual abstracta, subitamente transforma-se numa frase”, explica o director artístico, Pedro Lapa.
É o que acontece por exemplo na obra "Two Voices" (textos), onde várias folhas expostas na parede apresentam um texto de vários autores, e partindo de Copérnico e Galileu, os dois brasileiros decidiram questionar a ciência.
A superfície da folha é dividida em 1440 caracteres, correspondentes aos minutos de um dia.
Um texto para o Sol está escrito em caracteres regulares e corresponde aos minutos em que o Sol está no céu, e o texto para a Lua escreve-se em itálico e corresponde aos minutos da Lua.

Quando o Sol e a Lua se juntam no céu, os textos sobrepõem-se. “Os espaços em branco são momentos em que não há Lua. Segundo a realidade astronómica, há noites sem Lua e dias com Lua”, afirma Angela Detanico, explicando que é importante ir para além daquilo que está convencionado na nossa sociedade, é importante transpor códigos e perceber que a Lua não é exclusiva da noite nem o Sol é exclusivo do dia.
Também na obra “o dia mais longo, o dia mais curto”, a dupla mostra “de que forma o tempo se transforma em espaço, e o espaço em tempo”, adianta Pedro Lapa.
Duas pinturas murais com faixas de diferentes intensidades, do preto ao branco.
A graduação de tons corresponde às horas de luz do dia mais longo do ano e do dia mais curto do ano em Lisboa.
Entre as várias peças, pinturas murais, projecções e instalações, está uma instalação de livros empilhados.
O livro serve como sistema de escrita por empilhamento. A =1, B=2, até formar uma palavra. O objectivo aqui foi “escrever pelo meio de organização das coisas. É o mundo que nos fala”, completou a linguista de profissão, que estuda os desdobramentos da linguagem humana.
Vale a pena visitar a exposição “Amplitude”, no Museu Colecção Berardo, até dia 28 de Abril, de domingo a sexta-feira das 10:00 às 19:00 e ao sábado das 10:00 às 22:00
São visiveis as influências vanguardistas da arte digital e do concretismo deste casal que desafia a língua e comunica de forma muito própria e inovadora, e para quem “a ordem alfabética é uma pura convenção”.
Cultura

Correntes Literárias começa na Póvoa de Varzim



Até domingo a Póvoa de Varzim entra numa espécie de época alta de turismo pois o fim de Fevereiro nesta cidade já entrou no calendário cultural do país e as Correntes de Escritas já são consideradas como a "Feira do livro de Frankfurt em Portugal", lê-se na nota de imprensa.
A edição deste ano, que irá homenagear Urbano Tavares Rodrigues e Manuel António Pina, recentemente falecido, contará com a presença de mais de 50 escritores, oriundos de Portugal, Angola, Espanha e Brasil, e ainda tradutores, editores, designers, ilustradores, jornalistas que irão debater literatura em mesas redondas esapalhadas por várias escolasda cidade e aindanos vários lançamentos de livros que decorrem durante os três dias que dura o evento.
São muitos os escritores de nome que estarão nesta edição das Correntes de Escrita como Andrea del Fuego, a brasileira vencedora do prémio Saramago, os espanhóis Ignácio Martínez de Píson, Susana Fortes e Domingo Villar, os portugueses António Mega-Ferreira, Vasco Graça Moura, Valter Hugo Mãe, Hélia Correia, Rui Zink, Richard Zimmler ou Nuno Camarneiro (prémio Leya).
Na quinta feira, 21 de Fevereiro, pela de manhã será entregue o prémio literário Casino da Póvoa, para o qual são candidatas obras de Ferreira Gullar, Manuel António Pina, Hélia Correia, Fernando Guimarães, José Agostinho Baptista, Armando Silva Carvalho, Luís Filipe Castro Mendes e Bernardo Pinto de Almeida.
Será também lançada a revista Correntes de Escritas, dedicada, ao escritor Urbano Tavares Rodrigues que não estará presente por motivos de saúde.
Olhando com atenção para o programa literário do Festival não são claramente visíveis os ajustamentos orçamentais feitos pela autarquia uma vez que, como explica Segundo Luís Diamantino, " se taparam buracos financeiros alargaram significativamente a rede de parcerias" embora tenham deixado de patrocinar a 100% a vinda dos escritores.

"Essa despesa passou a ser feita pelas embaixadas e pelas próprias editoras". Talvez por isso se note a ausência de pequenas editoras sendo no entanto muito evidente a presença dos grandes grupos editoriais como a Porto Editora e a Leya.
Das pequenas editoras destaca-se a presença da Abysmo, que vai lançar o livro de Rui Vieira, “No Labirinto do Centauro”.
Cinema

Curta de João Viana distinguida no Festival de Berlim



Na sua passagem pelo Festival de Cinema de Berlim, João Viana revelou-se e foi alvo de uma distinção do DAAD Artists-In-Berlin Programme, reconhecendo o nivel artístico e visual de “Tabatô”, prémio que se soma à menção especial atribuída à sua longa “ A Batalha de Tabatô”, que já tem exibição garantida em França, Alemanha e Bélgica.
Para além da distinção, o prémio consiste numa bolsa para uma residência artística de três meses em Berlim.
A primeira presença de João Viana na Berlinale confirmou, assim, o reconhecimento internacional do realizador.
A menção de honra recebida pela longa-metragem “A Batalha de Tabatô” inclui também um prémio monetário, que será utilizado para cobrir alguns custos de rodagem do filme.
O juri considerou “A Batalha de Tabatô” como “um grande filme de João Viana sobre a Guiné-Bissau”o que veio abrir portas para a sua exibição em vários paises.
Papaveronoir, a produtora fundada pelo realizador, já assinou contratos com distribuidoras de vários países europeus e da América do Norte.