20 de fevereiro de 2013

A alma penada de odelouca

Havia uma senhora em Odelouca que tinha nove irmãos. Quando os pais morreram todos foram herdeiros. Ela herdou como um qualquer dos irmãos e dividiram as terras. Mas à noite ela ia, tirava o marco dela e punha mais desviado. No outro dia punha mais desviado.
Havia lá uma senhora que se chamava Palmira e disse-lhe assim, comadre não faça isso, que isso não se pode fazer, roubar terra.
A outra respondia comadre nesta vida bem passar que na outra ninguém nos vê penar.
Acontece que ela morreu e então à noite, pelas partilhas (eu era miúda pequena) e a gente só ouvia era ais. Eu dizia assim, coitadinha, quem é, avó? Ó filha, cala-te. Ó avó, mas quem é que está chorando?
Cala-te, filha, não digas nada.
Uma bela noite estávamos jantando favas (era a primeira vez que se comia favas naquele ano) e então ouvimos um choro para o lado dum lameiro. Era um lameiro muito grande, muito grande, e quem vinha de noite de Portimão, carvoeiros e outras pessoas, quando passavam por ali às vezes as bestas atolavam-se e só puxadas é que conseguiam safar-se. Parecia que vinha daquele lado o choro, uma agonia tão grande que se comovia o coração.
Diz a minha avó assim para um filho solteiro que tinha: filho vamos lá ver que foi alguém que veio de Portimão, eu ouço também unia criança chorar, é alguem que caiu além na lama e não se dá tirado.
Abalámos e fomos lá ver. Quando chegámos ao pé, uma lua como um sol, não estava besta, não estava vulto nenhum, não estava nada.
Voltámos para casa. E aqueles ais atrás da gente, aqueles ais sempre atrás da gente, que quando fomos para a mesa ninguém falava naquela casa e aquilo já soava debaixo da mesa onde a gente estava.
Estivemos ali naquilo até ao galo cantar e o meu avô disse assina “Bendito, louvado e adorado seja o Santíssimo Sacramento do Altar”. A partir daí não ouvimos mais nada. Isto ouvi eu várias vezes em miúda nova.
E depois as pessoas dali foram ter com o padre de Portimão, que era o padre Evaristo. Diziam que esse padre nunca tinha tido nada com mulheres e então que tinha virtude. Vieram pedir para ele esconjurá-la. Esconjurou pelo rio das pedras negras para ela medir um moio de areia com um meio alqueire sem fundo. Era a penitência. Coitada, nunca mais cá volta.
Então o padre disse que só no dia do Juízo, se ela já tiver a penitência paga, é que fica salva.
NUNCA HÁ BEM PASSAR QUE NA OUTRA VIDA NÃO DÊ EM PENAR.


Fonte: TENGARRINHA, Margarida Da Memória do Povo Lisboa, Colibri, 1999 , p.67-68

Local Mexilhoeira Grande, PORTIMÃO, FARO

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